Por que eu desisti do Android

Desde 2007, sou usuário do "iPhone OS", renomeado para "iOS" a partir da versão 4.0. Acompanhei, a nível milimétrico de detalhes, a evolução do maior sistema operacional móvel da história desde a sua versão 1.0. Assisti, de perto, os hackers invadindo o sistema da Apple para instalarem outros aplicativos além dos restritos e limitados 16 apps padrões. Vi a Apple amar a criatividade dos desenvolvedores e dar-lhes uma oportunidade: foi lançada a App Store, a primeira loja virtual de aplicativos para smartphones. Vamos começar a viagem no tempo a partir daí. Estamos em 2008.

Em julho de 2008, a situação do iPhone OS, até então na versão 2.0, era extraordinária. A recém lançada App Store conquistou desenvolvedores e usuários. O sistema operacional da Apple era seguro, estável, com recursos que davam ao consumidor tudo o que ele podia esperar para a época. A Apple dominava o mercado. Sem qualquer concorrência decente. Não existia sequer uma versão comercial do Android ainda -- ela só chegou no final de 2008.

Mesmo após o lançamento público do Android, a superioridade do sistema operacional da Apple era incontestável até para aqueles que são hoje os mais fervorosos fãs do Android. O sistema do robô verde era bastante instável, sua loja virtual tinha poucos aplicativos, o design estava pelo menos 5 anos atrás do seu tempo e faltavam recursos úteis. De lá pra cá, contudo, muita coisa mudou. O sistema da Google cresceu e se aproximou cada vez mais do iOS em quesitos cruciais como estabilidade e usabilidade. Além disso, o Android sempre foi mais aberto, o que lhe permitiu receber mais recursos (pela própria Google ou de terceiros) em um intervalo de tempo menor. Isto o tornou mais completo. Eram pontos interessantes a serem analisados. O Android parecia cada vez mais tentador. Acompanhada da evolução da Google, estava a evolução de suas parceiras: aparelhos com hardware um ano ou dois à frente do iPhone também estavam brotando no mercado.

Em 2013, decidi me aventurar. Passados 6 anos de experiência puramente com o iOS, migrei para o lado negro da força. Foi um grande erro. Optei pelo Galaxy S4. Note que isso não significa que me prendi ao Android da Samsung. Você entenderá o porquê ao longo da matéria.

Instabilidade não é coisa do passado

Duas realidades são incontestáveis: 1) a instabilidade no Android era muito forte no passado; 2) o Android ainda é um sistema instável, ainda que muito menos quando comparado às suas primeiras versões.

Comecei usando a ROM nativa do Galaxy S4, que é aquela customizada pela Samsung. Original, que já vem no aparelho. Em seguida, passei pela CyanogenMod e pela ROM da Google Play Edition. Em suma, experimentei três alternativas de alto nível:

  1. Na ROM nativa, da Samsung, eu esperava um nível básico de estabilidade, desempenho prejudicado e quantidade de recursos a nível máximo. Foi mais ou menos o que vi. Afinal, a Samsung lota seu sistema de recursos.
  2. Na CyanogenMod, esperei uma experiência mais fluida, somada com estabilidade do Android puro. Mesmo sendo uma ROM com modificações próprias de um grupo de desenvolvedores, ela é a ROM nativa do OnePlus One. Em outras palavras, é um grande projeto, com muita qualidade.
  3. Na ROM pura, portada da versão oficial do Galaxy S4 Google Play Edition, eu esperava performance e estabilidade a nível máximo. Afinal, estamos lidando com o Android puro, aquele desenvolvido pela própria Google.

Me decepcionei em todas as expectativas. A ROM nativa é péssima. O CyanogenMod e a ROM pura foram opções melhores, mas ainda estão presas ao coração do Android. Aliás, todas as ROM's estão presas ao mesmo mal. Travamentos frequentes. Não só no sistema, mas também com grandes aplicativos: o SwiftKey congela no mínimo 5 vezes por semana, o WhatsApp corrompe os chats eventualmente, e o Viber quase sempre trava numa tela preta. Isso que são aplicativos grandes e conceituados. A culpa, neste caso, é tanto dos desenvolvedores dos apps citados quanto do sistema operacional. Usei grandes nomes de aplicativos como exemplo para mostrar que muito provavelmente isto é uma realidade no Android, e a situação não se limita à uma particularidade. Provavelmente você sofrerá da mesma vontade de destruir seu celular. Viver em um universo rápido do século XXI nos torna intolerantes a coisas que andam devagar. E que travam tanto. O tempo inteiro.

Design

A Apple tem um estilo de design único. Não é à toa que Sir Jony Ive, chefão de design da maçã mordida, ganha tantos prêmios. O Android 5.0 Lollipop ainda minimizou consideravelmente a inferioridade do Android em relação ao design do iOS, mas a Apple continua sendo única. O Mac Pro é o computador desktop mais lindo do mundo. O iPhone é o smartphone mais lindo do mundo. O iPad é o tablet mais lindo do mundo. O MacBook é o notebook mais lindo do mundo. O Apple Watch é o smartwatch mais lindo do mundo. A Apple pode ter perdido muitas qualidades com o passar dos anos, mas sua excelência no design parece estar garantida enquanto Jony se mantiver na posição de Vice-Presidente de Design.

O iPhone é lindo. O iOS é lindo. Certamente, há quem discorde. Afinal, design é gosto. Mas minha opinião é sólida: o sistema Android perde para o iOS em design. E o iPhone ganha de qualquer outro smartphone do mercado no quesito design. Em hardware e software, ponto para o iPhone.

Hardware

Infelizmente, o iPhone está atrasado há alguns anos neste quesito. No momento da publicação desta matéria, o iPhone mais recente é o "6". Ele tem um processador dual-core com clock máximo de 1.4GHz, 1GB de RAM e armazenamento de até 128GB. A bateria é de 1810 mAh para o iPhone 6 de 4,7 polegadas, contra 2915 mAh para o iPhone 6 Plus de 5,5 polegadas. Processador mediana, RAM mediana, GPU mediana, bateria mediana. Nada de revolucionário em hardware. Tudo abaixo dos padrões do mercado. Talvez o único aspeco em que o iPhone 6 não perde para seus concorrentes em hardware seja na capacidade de armazenamento interno, que é de 128GB.

É inviável listar todos aparelhos que rodam Android têm um hardware melhor que o do iPhone 6. Afinal, a lista é grande. Mas processadores Snapdragon quad-core e 2 ou 3GB de RAM são configurações comuns entre os melhores smartphones do mercado. As configurações são claramente superiores às do celular fabricado pela Apple.

Ainda assim, ao contrário daquilo que era esperado, o iPhone, com seu modesto hardware, se sai muito melhor que seus concorrentes em testes de benchmark. É... O iPhone é líder em performance. O motivo é óbvio: o iOS é leve e estável. A combinação perfeita software + hardware é uma exclusividade da Apple. Isto é algo que empresa faz muito bem. É assim com toda sua linha de produtos: Macs, iPhones, tablets e smartwatches.

Em suma, o iPhone tem um hardware um pouco abaixo da média. Mas não é motivo para desespero. Ele continua atentendo até mesmo os heavy-users. E segue liderando nos testes de benchmark. Superando, inclusive, os tops de linha que rodam Android.

Aonde o BlackBerry e o Windows Phone se encaixam?

Alguém acredita que o BlackBerry seja mesmo a melhor opção para empresas? As campanhas publicitárias mentirosas da empresa canadense me fazem ter uma única certeza: ela precisa urgentemente investir mais tempo para descobrir o que fazem ótimos smartphones ótimos. Já o Windows Phone, desenvolvido pela Microsoft, não tem uma interface que me agrada, sua loja virtual tem pouco conteúdo e o sistema não é nada prático.

Nem em uma última instância eu aprovo o BlackBerry e o Windows Phone. Talvez só em uma falta desesperadora de opções. Enquanto o iOS e o Android existirem, descarto por completo a sugestão de migrar para estas duas plataformas. Pelo menos enquanto elas não fazem nada para agitar o mercado mobile.